terça-feira, janeiro 10, 2006

Endogamia no sistema universitário II

Post enviado por Tito Cardoso e Cunha.

O texto do Jorge Rosa suscita-me os seguintes comentários sobre a questão da endogamia:
1.- A regra da endogamia no sistema universitário não se pode encarar como longínqua utopia. É um problema de necessidade se se quer ver reconhecida internacionalmente a universidade portuguesa. A gigantesca percentagem de 93% de endogamia (cito de memoria a partir de um artigo no El Pais) desprestigia a universidade portuguesa, relega-a para níveis terceiromundistas.
2.- Há certamente razões históricas e sistemáticas que explicam esses níveis tão elevados de endogamia. Havia entre nós uma tradição, prestes acabar por força das circunstâncias, que fazia a carreira docente universitária começar ao nível de assistente. Nessa situação, o docente devia, simultaneamente, assegurar a leccionação de disciplinas e preparar o doutoramento. Ora, as novas circunstâncias fazem, e bem, com que a carreira docente se inicie apenas com o doutoramento concluído. Antes disso é-se estudante e, a esse título, deve-se ter direito a todos os incentivos possíveis. Para terminar o doutoramento, não para dar aulas.
3.- A questão da mobilidade é hoje mais uma questão de bloqueio mental do que outra coisa. Fora de Lisboa já começa a haver salvação. Com a vantagem de tudo ser mais barato uma vez que se sai da capital, começando pela habitação.
4.- O problema do emprego dos doutorados (e das doutoradas, cada vez mais) não se pode resolver com a endogamia. Não se trata de pôr pessoas “no olho da rua.” Se eles, enquanto estudantes de doutoramento, não estão dentro do sistema, não se põe o problema de os expulsar, antes o de os integrar. E a endogamia não será o melhor meio de conseguir esse objectivo. O que cria emprego é a exogamia porque liberta os lugares tradicionalmente açambarcados pelo sistema mandarinal. Porque, precisamente, o grande inconveniente do mandarinato é a limitação da carreira académica ao exercício da subserviência dependente que não está necessariamente relacionada com a excelência científica.
5.- Onde Jorge Rosa tem certamente razão é ao sugerir que o problema da endogamia não se resolve em si e por si. A sua resolução implica alterações substanciais não apenas de mentalidade mas também de enquadramento. Certamente que o ECDU tem de ser profundamente alterado. Ele é hoje uma das razões fundamentais do bloqueamento da progressão nas carreiras a que temos vindo a assistir. E é também uma das razões fortes da predominância da endogamia na universidade portuguesa.
6.- A meu ver a questão estrutural que mais tem bloqueado tudo resolver-se-ia, porventura com relativa facilidade, se se distinguissem duas coisas que deveriam ser pensadas separadamente: a normal progressão na carreira e o provimento de um lugar. No primeiro caso tratar-se-ia de avaliar o desempenho, sobretudo científico, do docente investigador. Isso deveria ser feito com base em apreciações vindas de fora. No segundo caso, trata-se de prover um lugar vago. Aí faz todo o sentido abrir um concurso em que o candidato, vindo de fora, é escolhido internamente pela instituição. O nosso problema é que confundimos as duas coisas e para haver progressão é preciso abrir concurso e, consequentemente, lugar a prover. Não havendo lugar, ninguém progride. Ou, no sistema mandarinal, progride e é pro(mo)vido quem demonstrar boas qualidades de subserviência. Isto é o que o actual sistema permite, o que não quer obviamente dizer ser sempre esse o caso.

1 Comments:

Blogger Jorge M. Rosa said...

Caro Tito,
Estamos afinal de acordo no fundamental; se há divergências são mais de superfície, e em parte no que respeita às soluções. É bom, como diz, que não se confundam coisas que não devem ser confundidas, mesmo quando se entrelaçam de tal forma que é difícil separá-las. É esse, parece-me, o caso do «estudo» mencionado uns posts abaixo sobre endogamia universitária, que -- leiam por favor os artigos da Nature -- quer retirar conclusões de um estudo feito a apenas 51 casos TODOS da mesma área científica (a ecologia e zoologia), sem ter em conta, por exemplo, a evolução dos sistemas universitários de cada um dos países e a «história de vida» de cada um dos investigadores.
Choca-me profundamente que o artigo da Maria Manuel Mota, no Público, QUE É UMA CIENTISTA das áreas «duras», tenha «reificado» o estudo como se fosse sequer significativo (para mim, admiro-me até que tenha merecido publicação na Nature! Duvido que saísse na Revista Crítica de Ciências Sociais) e não tivesse pelo menos lido o comentário do Camacho, que demonstra que, usando outros indicadores de correlação igualmente numéricos, a hipótese do primeiro artigo é severamente posta em causa.

Voltamos ao velho problema: «Cui bono?» O que tem o João Cravinho a ganhar com a proposta para eliminar a endogamia, o que tem a Maria Manuel Mota a ganhar com esse artigo no Público, etc., etc. (E sim, se assim quiserem, nem mesmo eu escapo ao «Cui bono?»)

Endogamia, reduzida produtividade, pouca ou nenhuma componente empírica nas humanidades, péssimo enquadramento legislativo da figura do professor/investigador, salários reduzidos e financiamentos insuficientes para a investigação, tudo isso deve ser combatido. Não se pense que tratar do primeiro item da lista resolve magicamente todos os outros.
Abraços,
Jorge Rosa

terça-feira, janeiro 10, 2006 10:04:00 da manhã  

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